As chamadas canetas emagrecedoras estão mudando não apenas o corpo de quem busca perder peso, mas também a forma como alguns pacientes respondem ou percebem os resultados de procedimentos estéticos. No consultório do biomédico Dr. Hélio Rodrigues, a observação de pacientes em processo de emagrecimento tem chamado atenção para uma possível mudança na duração percebida dos efeitos de tratamentos como toxina botulínica, bioestimuladores e abordagens tecnológicas

A hipótese ainda precisa de estudos clínicos que comprovem uma relação direta entre os medicamentos e a menor durabilidade desses procedimentos. Mas a transformação provocada pelo emagrecimento já é conhecida pela ciência e pode alterar significativamente a estrutura sobre a qual os tratamentos estéticos atuam.

“Estamos acompanhando uma mudança importante no perfil desses pacientes. A pessoa não está apenas perdendo peso. Ela está modificando volume, contorno, sustentação e composição corporal. Por isso, não faz sentido imaginar que o protocolo estético utilizado antes do emagrecimento necessariamente continue sendo o mais adequado depois dele”, explica o biomédico Hélio Rodrigues.

Um dos dados mais relevantes vem de uma análise do estudo STEP 1, com semaglutida. Após 68 semanas, os participantes apresentaram redução média de 15% do peso corporal, acompanhada de queda de 19,3% na massa de gordura e de 9,7% na massa corporal magra. Embora massa magra não seja sinônimo de músculo, o dado mostra que a perda de peso provoca mudanças relevantes na composição corporal.

As alterações são particularmente perceptíveis no rosto. Uma revisão publicada em 2026 no Dermatologic Surgery descreve mudanças associadas à perda de peso induzida por terapias com análogos de GLP-1, incluindo redução de compartimentos de gordura, perda de suporte, alterações de contorno e aumento da flacidez da pele. O trabalho aponta o uso de estratégias como bioestimulação de colágeno e restauração seletiva de volume como possibilidades para lidar com essas transformações.

Outro estudo publicado neste ano no Aesthetic Surgery Journal Open Forum destaca que pacientes em tratamento com análogos de GLP-1 podem apresentar perda de volume no terço médio da face, alterações nas regiões temporal e infraorbital, aumento da flacidez e maior evidência de rugas e sulcos. Os autores recomendam acompanhamento regular porque as necessidades estéticas podem mudar ao longo da própria jornada de emagrecimento.

“Quando o paciente emagrece rapidamente, precisamos olhar para ele de maneira diferente. A estrutura que recebia determinado procedimento antes já não é necessariamente a mesma. Por isso, mais importante do que simplesmente aumentar a frequência das aplicações é entender o que mudou e qual é a necessidade real naquele momento”, afirma Rodrigues.

A observação também envolve pacientes que já realizaram procedimentos estéticos antes de iniciar as canetas. Segundo o biomédico, alguns relatam perceber que o resultado de tratamentos aos quais já estavam habituados parece desaparecer mais rapidamente durante o processo de emagrecimento.

Essa percepção encontra uma primeira hipótese científica, embora ainda preliminar. Um estudo publicado na revista Toxicon em 2026 utilizou um modelo computacional com 25 mil pacientes virtuais para avaliar uma possível interação entre agonistas de GLP-1 e a duração da toxina botulínica. A simulação apontou uma possível redução da duração do efeito, mas os próprios pesquisadores ressaltam que os resultados são exploratórios e precisam ser validados em estudos clínicos com pacientes reais.

“É importante separar percepção clínica de comprovação científica. Não estamos dizendo que as canetas fazem a toxina durar menos. O que observamos é que existe uma mudança no comportamento desses pacientes e que a ciência começa a investigar mecanismos que podem explicar parte desse fenômeno. É justamente por isso que o acompanhamento profissional se torna ainda mais importante”, ressalta Hélio Rodrigues.

O protocolo precisa acompanhar o corpo

Para Rodrigues, o principal cuidado está em não transformar a mudança de resposta em uma corrida por novas aplicações. O paciente que emagrece deve ser acompanhado de forma individualizada, considerando velocidade da perda de peso, composição corporal, qualidade da pele, volume facial e objetivo do tratamento.

A mesma lógica vale para quem já fazia procedimentos antes de iniciar o tratamento para perda de peso. Em vez de simplesmente repetir aplicações nos mesmos intervalos, o protocolo pode precisar ser reavaliado de acordo com a nova condição do paciente.

A ANVISA reforça que os medicamentos análogos de GLP-1, entre eles semaglutida e tirzepatida, devem ser utilizados com prescrição médica e acompanhamento profissional. Desde junho de 2025, a dispensação desses medicamentos passou a exigir retenção da receita nas farmácias brasileiras, após a Agência identificar aumento de eventos adversos relacionados principalmente ao uso fora das indicações aprovadas.

“Não existe uma regra única. O paciente que está emagrecendo precisa preservar a massa muscular, acompanhar a evolução do corpo e, paralelamente, entender quando um procedimento estético é realmente necessário. Para quem já fazia tratamentos, o caminho também é revisar o planejamento. O corpo mudou, então o tratamento precisa acompanhar essa mudança”, conclui Rodrigues.

Sobre o Dr. Hélio Rodrigues

Dr. Hélio Rodrigues é biomédico, mestre, doutor e pós-doutor, com atuação em medicina regenerativa, envelhecimento saudável e estética baseada em evidências. Une pesquisa científica, prática clínica e prevenção para desenvolver protocolos personalizados voltados à qualidade de vida e ao envelhecimento saudável.