A narrativa oficial das guerras é masculina. Na imensa maioria dos casos, conhecemos a história através de depoimentos de homens, sejam eles soldados, comandantes, capitães, presidentes ou historiadores.
Recém-premiada com o Nobel de Literatura, a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich entrevistou centenas de mulheres que sobreviveram à Segunda Guerra e transformou os relatos no premiado livro ‘A Guerra Não Tem Rosto de Mulher’.
Pela primeira vez, a obra chega aos palcos brasileiros no espetáculo homônimo concebido e dirigido por Marcello Bosschar, com temporada de sexta a domingo no Teatro FAAP, até 17 de dezembro. Em cena, Carolyna Aguiar, Luisa Thiré e Priscila Rozembaum dão voz a heroínas de guerra, em relatos que dão conta de temas tão complexos quanto o conflito em que estão envolvidas.
Bosschar conta que a autora precisou insistir muito para falar com as esposas dos “heróis” da guerra. “Elas são heroínas, mas se acostumaram aos bastidores por terem, segundo os maridos, uma versão menos ‘cinematográfica’ dos fatos. Svetlana deixa que as lembranças dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente de morte. Muitas queriam falar sobre o amor, a menstruação, as lágrimas e a sensação horripilante de matar alguém pela primeira vez”, diz o diretor.
Apesar do valor histórico e documental, a proposta da direção foi a de privilegiar o humano em cena. Todas as referências de tempo e lugar foram retiradas da adaptação, assinada por Bosschar em parceria com as três atrizes. O palco está desnudo e as imagens são todas compostas através da coreografia e do movimento das intérpretes.
A ideia é que elas conduzam o público neste profundo mergulho pelos horrores da guerra, mas também o faça entrar em contato com os eventos cotidianos no front e nas batalhas. Do alistamento das jovens – que não faziam ideia do que iria acontecer com elas – ao anúncio do fim da guerra, passam pelo palco histórias de perdas, lutas e superações, mas também histórias de amor, amizade e afeto.
“Ao retirarmos referências geográficas e culturais, fazemos com que “a Guerra” possa ser qualquer guerra, inclusive as urbanas que estão tão próximas de todos nós. O que restou foram mães, irmãs, filhos e avós. Todos nós entendemos a linguagem da perda, da esperança e do amor. A peça é universal, pois é humana. São mulheres que morreram e outras que sobreviveram nas guerras passadas e nas presentes”, resume Bosschar.
A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER
A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER

A narrativa oficial das guerras é masculina. Na imensa maioria dos casos, conhecemos a história através de depoimentos de homens, sejam eles soldados, comandantes, capitães, presidentes ou historiadores.
Recém-premiada com o Nobel de Literatura, a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich entrevistou centenas de mulheres que sobreviveram à Segunda Guerra e transformou os relatos no premiado livro ‘A Guerra Não Tem Rosto de Mulher’.
Pela primeira vez, a obra chega aos palcos brasileiros no espetáculo homônimo concebido e dirigido por Marcello Bosschar, com temporada de sexta a domingo no Teatro FAAP, até 17 de dezembro. Em cena, Carolyna Aguiar, Luisa Thiré e Priscila Rozembaum dão voz a heroínas de guerra, em relatos que dão conta de temas tão complexos quanto o conflito em que estão envolvidas.
Bosschar conta que a autora precisou insistir muito para falar com as esposas dos “heróis” da guerra. “Elas são heroínas, mas se acostumaram aos bastidores por terem, segundo os maridos, uma versão menos ‘cinematográfica’ dos fatos. Svetlana deixa que as lembranças dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente de morte. Muitas queriam falar sobre o amor, a menstruação, as lágrimas e a sensação horripilante de matar alguém pela primeira vez”, diz o diretor.
Apesar do valor histórico e documental, a proposta da direção foi a de privilegiar o humano em cena. Todas as referências de tempo e lugar foram retiradas da adaptação, assinada por Bosschar em parceria com as três atrizes. O palco está desnudo e as imagens são todas compostas através da coreografia e do movimento das intérpretes.
A ideia é que elas conduzam o público neste profundo mergulho pelos horrores da guerra, mas também o faça entrar em contato com os eventos cotidianos no front e nas batalhas. Do alistamento das jovens – que não faziam ideia do que iria acontecer com elas – ao anúncio do fim da guerra, passam pelo palco histórias de perdas, lutas e superações, mas também histórias de amor, amizade e afeto.
“Ao retirarmos referências geográficas e culturais, fazemos com que “a Guerra” possa ser qualquer guerra, inclusive as urbanas que estão tão próximas de todos nós. O que restou foram mães, irmãs, filhos e avós. Todos nós entendemos a linguagem da perda, da esperança e do amor. A peça é universal, pois é humana. São mulheres que morreram e outras que sobreviveram nas guerras passadas e nas presentes”, resume Bosschar.




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