A Utopia na Era da Incerteza

Cena do espetáculo
A Utopia na Era da Incerteza

 

Comemorando 25 anos de trajetória, a Cia. Lúdica, de São Paulo, ocupa o Centro Cultural Tendal da Lapa, entre os dias 23 de março e 5 de setembro/2019, com o projeto A Utopia na Era da Incerteza, contemplado pela 32ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São  Paulo.

A Cia. Lúdica, que sempre teve como foco em sua pesquisa os dramas e as tramas da urbanidade, faz nesta proposta um recorte sobre como os domínios da globalização e as consequências das incertezas políticas interferem na realidade da população. E a vida, que um dia foi sonhada como vida boa, utopia, tornou-se para muitos o contrário, distopia.

Bauman: jardineiro x caçador

A Utopia na Era da Incerteza tem como inspiração o pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre o seu conceito a respeito do termo “líquido”, o qual sinaliza o mundo contemporâneo como o reflexo de uma sociedade líquida, em que praticamente tudo é descartável, volátil, nada é feito para ser sólido. As relações entre as pessoas tendem a ser cada vez menos frequentes, pouco duradouras e segregacionistas. A sociedade contemporânea não entende mais o progresso como um benefício para a coletividade, mas sim uma busca por vantagens individuais como objetivo principal. O ser dá lugar ao ter e o nosso é substituído pelo meu. Ao invés da esperança de um mundo feliz, ideal, de liberdade, de harmonia e felicidade entre os indivíduos (utopia), surgiram as distopias: decadência e desconstrução que vêm junto com desenvolvimento e progresso por meio do controle social e político dos habitantes.

Bauman concebe uma metáfora sobre a humanidade fazendo uma analogia ao trabalho do jardineiro e do caçador. O jardineiro, antes de plantar, planeja um arranjo ideal, depois cuida para que ele seja cultivado no terreno. Quando concretiza o projeto, espalhando as sementes desejadas de algumas espécies de plantas, elimina aquelas que nascem no solo quebrando a harmonia do jardim e as batiza de “ervas daninhas”. O jardineiro tende a ser um planejador, zeloso e hábil. Um sonhador antes de realizar seu trabalho. Um construtor de utopias.

O caçador pouco se importa com o equilíbrio e harmonia da floresta. A única tarefa que os caçadores buscam é outra matança, suficientemente grande para encherem todas as suas bolsas. Não se preocupam se os animais irão desaparecer e se os bosques ficarão vazios devido a uma caçada vantajosa. Simplesmente, poderão mudar para outra mata intacta. É possível calcularem que futuramente o planeta possa não ter mais florestas abundantes. Entretanto, se isso acontecer, não o verão como uma inquietude momentânea. Essa possibilidade distante não vai afetar nem prejudicar os resultados da atual caçada, nem da próxima, porque em geral, cada caçador imagina ser apenas um caçador entre muitos ou apenas uma associação de caça entre tantas.

Na atualidade, todos são convocados ou compelidos a agir como os caçadores sob pena de serem expulsos da “caçada”, ou seja, do sistema. As “forças da globalização” que assumiram muitos dos antigos poderes dos países não são tão conhecidas por apresentarem instintos, filosofias ou estratégias ao estilo “jardineiro”. Em vez disso, favorecem a caçada e os caçadores.

A imersão artística múltipla, A Utopia na Era da Incerteza, propõe disparadores para refletir as ressonâncias e dissonâncias utópicas e distópicas entre os jardineiros e os caçadores da contemporaneidade.

Imersão artística múltipla: Instalação cenográfica, atividade sensorial e espetáculo teatral

O projeto A Utopia na Era da Incerteza retrata o caráter utópico/distópico na cidade de São Paulo, convidando o público para uma imersão artística múltipla, numa instalação cenográfica, na qual está dividida em 4 áreas nomeadas de “zonas”: Zona Externa (ZE), Zona Intermediária (ZI), Zona Interna (Zin) e Zona Geral (ZG), em que se amalgamam elementos da linguagem do teatro com as artes visuais.

Na instalação, o público vivencia 4 atividades: experiência sensorial artística de distopia (jogo distópico), experiência sensorial artística de utopia (jogo utópico), espetáculo teatral Utopia em uma noite de inverno, finalizando o percurso na Ágora Contemporânea, onde poderá, além de observar todos os vestígios do percurso e da encenação, como se participasse de um “descortinamento do espaço/tempo, manifestar-se, expressar ou ressignificar as impressões sobre a sua trajetória na instalação e sobre a experiência vivenciada. Para isso, terá à disposição um microfone aberto, cartolina, canetas coloridas, argila, livros, instrumentos musicais e outros materiais.

O espetáculo na instalação

O espetáculo Utopia em uma Noite de Inverno, mostra um grupo de cidadãos sem-teto, vivendo desalojados em uma cidade grande ao lado de um imenso edifício desocupado. Durante uma noite chuvosa e fria, surgem agentes “benfeitores” que distribuem sopa quente a essas pessoas.

Como em um passe de mágica, todo o grupo adormece e, ao acordar, encontra-se em mundo ideal, onde a utópica vida boa se concretiza. A encenação é um mergulho no tema central do projeto, percorrendo a trajetória que conduz aos dois extremos existentes entre a natureza utópica e a natureza distópica, as faces dialéticas de uma São Paulo líquida.

O processo

A concretização desse projeto iniciou com as três oficinas abertas direcionadas à 27 atrizes e atores: O Corpo Dilatado, com Bruna Longo; O Ator no Teatro de Bonecos e no Teatro de Máscaras, com João Araujo e Maratona Lúdica, com Marcya Harco e Paulo Drumond. Cada oficina, com duração de 24 horas, trouxe aos atores participantes e ao projeto uma contribuição grandiosa tanto do ponto de vista da troca de conhecimentos como na unificação do corpo criativo e artístico, no qual formou-se A Utopia na Era da Incerteza.

Os artistas, convidados por meio das oficinas durante os ensaios, brindaram a composição cênica desse projeto com a riqueza de seus ares e de suas culturas.

A instalação, projetada pelo artista Kleber Montanheiro, é aberta a múltiplas leituras e dispositivos, pelos quais os espectadores poderão experienciar. A obra se compõe por outras obras sensoriais e sinestésicas, como as performances audiovisuais do duo Clássicos de Calçada.

Nos figurinos de Deborah Corrêa, os personagens são retratados em camadas que passam do ambiente distópico para um mundo ideal.

O processo de A Utopia na Era da Incerteza continua convidando os seus artistas e espectadores a espelhar suas aventuras de utopias e distopias nas possibilidades e transformações de cada percurso vivido.

Por que o Tendal da Lapa?

O Tendal situa-se em uma área da cidade que dialoga com uma abordagem utópica/distópica. Ele foi um antigo matadouro de gado, construído em 1938, com a finalidade de fiscalizar as carnes comercializadas na cidade de São Paulo.

Está localizado próximo à Estação Lapa (CPTM), antiga linha de trem São Paulo Railway, uma das principais áreas de chegada de imigrantes e do desenvolvimento da indústria paulistana no início do século XX.

O Tendal esteve abandonado durante muitos anos, até ser revitalizado pela luta de artistas que o viram como um lugar ideal de produção e concretização de sonhos artísticos. Finalmente passou a ser um Patrimônio Histórico da nossa cidade, um espaço marcado por alteridades, resistência, distopias e utopias…

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